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A Curitiba de 331 anos e os alemães

Publicado em 02/04/2024

No longínquo ano de 1833, chegaram a Curitiba Michael Müller e sua esposa Ana Krantz. Vindos da Alemanha, tinham se estabelecido inicialmente na cidade de Rio Negro.

Aqui começa a relação dos alemães com a nossa cidade.

Michael Müller ou Miguel Alemão, como passou a ser chamado ao imigrar para o Brasil, se declarou lavrador. Na verdade, era artífice, apesar de entender muito do cultivo da terra. Logo após a sua chegada, abriu uma ferraria. Esta prosperou e propiciou a ele a compra de alguns imóveis ao redor da área onde hoje se localiza a Praça 19 de Dezembro. No bairro do Ahú, comprou terras para uma chácara. Lá, plantou pela primeira vez em solo curitibano: batata-inglesa, árvores frutíferas, hortaliças e um parreiral. Tudo importado da Europa. Segundo consta, produzia vinho de boa qualidade. Cavou o primeiro poço artesiano de Curitiba.

A história de sucesso de Miguel Alemão logo se propagou e chegou aos ouvidos dos imigrantes estabelecidos em Rio Negro e na Colônia Dona Francisca (hoje cidade de Joinville – SC), instigando inúmeras famílias a se transferirem para Curitiba.

Somente em 1856 vieram os primeiros emigrantes alemães com destino previamente escolhido: Curitiba, agora a Capital da Província do Paraná. Essas imigrações ocorreram regular e sucessivamente até o final do século XX.
Na Curitiba de 1872 viviam 9.500 habitantes, dos quais 1500 eram imigrantes, na sua maioria alemães.

A integração do elemento germânico à cidade se deu rapidamente. Com a sua expressiva capacidade criadora de bens e serviços, geradora de riquezas, os alemães estavam presentes em quase todas as atividades do comércio, dos transportes, da indústria e, inclusive, do ensino. Para podermos ter uma ideia do reconhecimento do progresso e desenvolvimento alcançado pelos alemães àquela época, no ano de 1880, por ocasião de sua visita a Curitiba, Dom Pedro II fez questão de conhecer pessoalmente Miguel Alemão e suas empresas, tendo ficado, segundo consta, bastante impressionado.

Já no século XX, por volta de 1975, tivemos a vinda de duas grandes empresas alemãs, a Bosch e a Siemens, que se instalaram na recém-criada Cidade Industrial de Curitiba. Com elas vieram também uma série de fornecedores, trazendo inúmeros trabalhadores alemães, que se juntaram aos habitantes da capital.

Em 1998, com a vinda da Audi e da Volkswagen, que se instalaram no município vizinho de São José dos Pinhais, o fenômeno se repetiu, agora em maior escala, em razão da cadeia de fornecedores, dessas montadoras.

Curitiba se modificou por completo.

Quando me recordo da Curitiba dos anos 50, 60, 70, 80 e 90, me lembro como ela era pacata e provinciana.

Tive a felicidade de brincar nas calçadas da então Fundição Müller, onde hoje está localizado o shopping com o mesmo nome. Me recordo de comprar cereais – trigo, milho, arroz – a granel no Armazém Weigert, carne no Açougue Garmatter (Julio Garmatter, emigrante alemão, que se tornou o rei da carne em Curitiba).

Acompanhando o meu pai, muitas vezes, compramos álcool em vidros de 100ml, na Farmácia Stellfeld, na Praça Tiradentes (Augusto Stellfeld, emigrante alemão que abriu a primeira farmácia de Curitiba). No Alto da Glória presenciei muitos pianos sendo embarcados, para serem tocados pelo mundo afora (Florian Essenfelder, emigrante alemão, fundou a fábrica dos famosos pianos Essenfelder). Me recordo de ter comprado muita “Delikatessen” na famosa Casa da Manteiga, da Frau Hilda, e de ter comido muita coalhada na Confeitaria Schaffer na Rua XV.

Hoje só restou a broa de centeio da Padaria América (fundada em 1913 por Eduardo Engelhardt, filho do emigrante alemão Friedrich Philipp Ludwig Eduard Engelhardt).

Em compensação, me orgulho muito em dirigir o meu Volkswagen produzido na “Grande Curitiba”.

Desde a chegada de Miguel Alemão, muita coisa aconteceu.

Como vimos, a influência dos alemães foi marcante em todas as áreas e segmentos. Inclusive na maneira de falar. Algumas palavras são próprias da capital dos curitibanos, pois somente aqui são faladas e compreendidas. Vale mencionar: vina (salsicha do sanduíche de cachorro-quente, palavra oriunda do idioma alemão – Wiener) e cuque (bolo coberto de farofa, palavra vinda do idioma alemão – Kuchen).

Essas “ocorrências linguísticas” são previsíveis quando culturas diferentes se entrelaçam, da forma que se deu.

Muito mais importantes que as palavras vina e cuque, foram aquelas faladas, ensinadas e praticadas por Miguel Alemão e seus conterrâneos, quais sejam: seriedade, dedicação, determinação e, principalmente, trabalho sério.

Essas palavras, tomadas ao pé da letra, fizeram da nossa querida Curitiba uma cidade que, apesar dos seus 3 milhões de habitantes, se considerarmos a grande Curitiba, é um bom lugar de se viver.

Nos anos 60, Curitiba era conhecida como “Cidade Sorriso”. Confesso que jamais entendi tal ironia, uma vez que os curitibanos eram conhecidos, em todo o país, por ser um povo fechado, tímido e até mesmo antipático.

Somente agora entendo. Estávamos guardando o sorriso em nossas faces, e agora ele explodiu, não só no rosto, mas principalmente em nossos corações, dado o orgulho e felicidade de vivermos aqui, na cidade de Nossa Senhora da Luz dos Pinhais. Os alemães continuam “imigrando”, por meio de empresas que aqui se estabelecem. Recentemente escutei, pessoalmente, de um grande empresário da Baviera, cuja companhia se instalou na Cidade Industrial de Curitiba: “a escolha de Curitiba como sede da empresa, foi a mais acertada. Conseguimos os melhores trabalhadores do Brasil, todos queriam morar aqui”. Isto graças ao nosso herói, Miguel Alemão.

 

Como um curitibano feliz, invoco os dizeres de nosso Burgomestre (Bürgermeister)…

Es lebe Curitiba! Quero dizer: Viva Curitiba!

 

* Wilson José Andersen Ballão é advogado e sócio fundador do escritório Andersen Ballão Advocacia e vice-diretor da Câmara de Comércio e Indústria Brasil Alemanha – filial Paraná (AHK Paraná). Em 2015 foi condecorado com a Cruz do Mérito da República Federal da Alemanha concedido pelo Presidente alemão Joachim Gauck e, em 2023, foi homenageado pela Comenda Municipal da Ordem da Luz dos Pinhais de Curitiba entregue pelo prefeito Rafael Greca.

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