Fim da escala 6×1: produtividade e resultados positivos
Publicado em 02/06/2026
Na semana passada, foi aprovada na Câmara dos deputados a PEC (Proposta de Emenda Constitucional) que trata do fim da escala 6 x 1 Aguarda-se agora a apreciação da Proposta no Senado Federal. Destaque-se que a discussão sobre o fim da escala 6×1 no Brasil deixou de ser uma pauta restrita ao campo político ou sindical. O tema passou a ocupar espaço no ambiente empresarial justamente porque diversas empresas começaram a perceber que jornadas excessivas nem sempre significam mais produtividade, maior faturamento ou operações mais eficientes. Em muitos casos, ocorre justamente o contrário.
Historicamente, a escala 6×1 tornou-se comum em setores como comércio, supermercados, restaurantes, hotelaria e serviços. O modelo foi incorporado à cultura empresarial brasileira sob a lógica de maximização da operação, especialmente em segmentos que dependem de funcionamento contínuo. Entretanto, o avanço das discussões sobre saúde mental, qualidade de vida e produtividade trouxe um novo olhar para a forma como as empresas administram pessoas e resultados.
O debate ganhou força no Brasil com a discussão da PEC. Apesar da legítima preocupação de parte do setor produtivo, algumas experiências práticas demonstram que a flexibilização da jornada não necessariamente representa perda econômica. Em certos casos, inclusive, os resultados foram positivos tanto para funcionários quanto para empresários.
Um dos exemplos mais relevantes é o da rede de restaurantes Gurumê. O proprietário da rede implementou o modelo 5×2 em suas operações e os impactos observados chamaram atenção. Segundo reportagem publicada pela Folha de São Paulo, a empresa registrou redução de aproximadamente 30% na rotatividade de funcionários, além de significativa queda em faltas e atestados médicos.
O caso possui relevância justamente por envolver o setor de alimentação, tradicionalmente marcado por jornadas extensas, alta pressão operacional e dificuldade de retenção de mão de obra. A experiência demonstra que funcionários menos desgastados tendem a produzir melhor, faltar menos e permanecer por mais tempo nas empresas, reduzindo custos indiretos frequentemente ignorados pelos empregadores.
Outro exemplo importante vem do Grupo Savegnago, rede supermercadista do interior paulista. A empresa iniciou a substituição gradual da escala 6×1 pelo modelo 5×2 e relatou aumento do interesse nas vagas, redução de afastamentos e menor índice de pedidos de demissão.
Esse aspecto merece atenção porque o varejo enfrenta, atualmente, enorme dificuldade na contratação e retenção de trabalhadores. Em muitos segmentos, oferecer uma jornada mais equilibrada passou a representar vantagem competitiva para atração de profissionais, especialmente entre trabalhadores mais jovens, que valorizam qualidade de vida e equilíbrio entre trabalho e vida pessoal.
As experiências positivas não se limitam às grandes empresas. Pequenos empresários também passaram a relatar benefícios após a redução das jornadas. Fernando Russell, proprietário de hamburguerias em São Paulo, afirmou que a mudança para um modelo menos desgastante trouxe melhora financeira para uma de suas unidades, além de reduzir faltas e trocas frequentes de funcionários.
Esse ponto é relevante porque um dos principais argumentos contrários ao fim da escala 6×1 é justamente o aumento dos custos operacionais. Entretanto, parte das empresas que adotaram jornadas reduzidas passou a perceber diminuição de despesas ocultas relacionadas à alta rotatividade, recrutamento constante, treinamentos sucessivos, afastamentos médicos e queda de produtividade causada pelo desgaste das equipes.
Outro caso frequentemente mencionado é o da empresa brasileira Vockan, que já nasceu operando com semana de quatro dias. Segundo dados divulgados pela Folha de São Paulo, a companhia registrou aumento de 32% na produtividade e mais do que dobrou de tamanho em apenas dois anos.
Naturalmente, a discussão não pode ser tratada de maneira simplista. Existem setores cuja adaptação demanda reorganização operacional, revisão de escalas, contratação adicional e mudanças estruturais. Parte do empresariado também demonstra preocupação com eventual aumento de custos e possíveis reflexos econômicos. O próprio debate legislativo ainda enfrenta forte resistência dentro do Congresso Nacional.
Entretanto, ignorar os resultados positivos já observados em diferentes empresas também seria um erro. Os exemplos concretos demonstram que jornadas excessivamente longas podem gerar impactos negativos para os próprios negócios. Funcionários exaustos tendem a cometer mais erros, produzir menos, apresentar menor capacidade de atendimento e desenvolver maior propensão ao adoecimento físico e emocional.
A discussão sobre o fim da escala 6×1 não envolve apenas redução de horas trabalhadas. Trata-se, sobretudo, de um debate sobre eficiência, sustentabilidade empresarial e gestão moderna de pessoas. Empresas que conseguem equilibrar produtividade com qualidade de vida tendem a construir equipes mais estáveis, ambientes menos adoecidos e operações mais eficientes no longo prazo.
O mercado de trabalho mudou. A relação das pessoas com o trabalho também. Nesse cenário, talvez o maior desafio das empresas não seja descobrir como fazer seus funcionários trabalharem mais horas, mas sim como fazê-los trabalhar melhor, de forma mais produtiva e menos desgastante.
*José D’Almeida Garrett Neto é advogado da Andersen Ballão Advocacia, especialista em Direito Trabalhista.
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