Empresas vinculam investimento social privado a compromissos públicos
Publicado em 05/08/2026
Metas voluntárias conectam as doações ao planejamento dos negócios e elevam a governança
Empresas brasileiras financiam ações sociais há décadas, porém a forma como esse investimento é assumido perante a sociedade começa a mudar. O investimento social privado (ISP), que corresponde à destinação planejada de recursos particulares a causas de interesse público, ganha espaço em compromissos voluntários divulgados ao mercado, com metas recorrentes e vínculo com o planejamento empresarial.
O Compromisso 1%, iniciativa liderada pelo Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social (IDIS) e o Instituto MOL, traduz esse movimento ao incentivar companhias a destinarem ao menos 1% do lucro líquido anual a organizações da sociedade civil ou coletivos que atuam em causas socioambientais. Em abril de 2026, quando ocorreu o segundo encontro promovido pelas entidades organizadoras, a iniciativa reunia 27 signatárias e mantinha novas adesões em andamento. Em maio do mesmo ano, a entrada do Banco BMG, primeiro banco brasileiro a integrar a mobilização, levou o compromisso ao setor financeiro e reforçou sua capacidade de alcançar diferentes segmentos da economia.
Para a advogada Marcella Souza Carvalho, especialista em Direito do Terceiro Setor da Andersen Ballão Advocacia e responsável pelos temas de Assuntos Culturais e Terceiro Setor, a principal mudança nesta tendência em relação ao investimento social privado está na disposição das empresas de dar caráter público e permanente à contribuição social. “Quando uma companhia anuncia um percentual anual, ela cria uma referência pública para a própria conduta, por isso a execução precisa corresponder ao compromisso que foi comunicado”, explica.
Investimento social privado entra no planejamento empresarial
Ao assumir uma meta recorrente, a empresa precisa considerar o aporte durante a elaboração do orçamento, pois a continuidade da iniciativa dependerá da forma como os recursos forem previstos ao longo dos exercícios. Segundo Marcella, essa incorporação ao planejamento também reduz a dependência de decisões circunstanciais, que podem variar conforme o desempenho financeiro ou a mudança das lideranças.
A divulgação do compromisso aumenta ainda a responsabilidade sobre a forma como a companhia informa seus resultados. De acordo com a advogada, a transparência pressupõe que os valores anunciados possam ser relacionados aos repasses efetivamente realizados, de modo que a comunicação institucional encontre respaldo nos registros internos e nas deliberações empresariais.
“A adesão é voluntária, mas a exposição pública cria uma expectativa legítima de coerência, tanto entre os administradores quanto entre os demais públicos que acompanham a atuação da empresa”, pontua a especialista.
A formalização jurídica também merece atenção depois que a companhia escolhe a organização que receberá o aporte. O instrumento utilizado deve vincular o repasse à finalidade aprovada e explicar como a aplicação dos recursos será acompanhada, o que permite estabelecer responsabilidades compatíveis com a natureza da parceria e com o modelo de governança adotado.
Dados qualificam a filantropia corporativa
Outro sinal de amadurecimento do setor ocorreu com o lançamento do Observatório da Filantropia e do Investimento Social Privado, o OFISP. Criada pelo GIFE em parceria com o INCT Participa, a plataforma reúne estudos e bases de dados que antes estavam dispersos, com o objetivo de apoiar decisões de organizações, pesquisadores e formuladores de políticas públicas. Seu mapa inicial contém informações sobre 312 instituições presentes em 18 estados e 54 municípios.
Na avaliação de Marcella, a disponibilidade de evidências pode ajudar as empresas a compreender melhor as necessidades do campo antes de definir onde concentrar seus recursos. “O acesso a dados permite fundamentar a escolha das causas apoiadas e acompanhar se o investimento alcançou os resultados esperados, o que também favorece a prestação de contas dentro da própria companhia”, afirma.
A consolidação de compromissos públicos tende, portanto, a aumentar a demanda por assessoria jurídica e institucional desde a formulação da política empresarial. Segundo ela, o acompanhamento especializado contribui para adequar a iniciativa à estrutura da companhia e organizar sua execução conforme a legislação aplicável. “O trabalho jurídico oferece suporte para que a decisão empresarial seja formalizada com segurança e mantenha correspondência com a governança e com o planejamento do negócio”, orienta Marcella.
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